Elle (2016)- Crítica

Avaliação: 4 Stars (4 / 5)

Paul Verhoeven, 78 anos, experimentou todas as fases que um grande cineasta passa durante sua vida filmográfica. Começando com os filmes independentes e intimistas de início de carreira, como Negócio É Negócio (1971), Louca Paixão (1973) e  Os Amores de Katie (1975); passando pelos grandes sucessos Hollywoodianos de Robocop (1987), O Vingador Do Futuro (1990) e Instinto Selvagem (1992) ao execramento injusto por Showgirls (1995). Nos últimos anos, deixou Hollywood e voltou a fazer filmes em seu país. E de lá saíram alguns longas interessantes, como a Espiã (2006). Hoje, beirando os 80 anos e com bagagem de sobra, Verhoeven volta com um filme que necessita de uma mão firme como a do próprio para conduzir corretamente. E ele o fez.

A história gira em torno de Michèle, que é executiva em uma empresa de criação de games. Certo dia, quando estava em sua casa, ela é brutalmente atacada por desconhecido encapuzado, que a agride e estupra. E não contente, o agressor volta outras vezes para repetir o crime.

Talvez o maior acerto de Verhoeven seja a escolha da atriz para interpretar Michèle: Isabelle Huppert. Consagrando-se como uma das maiores atrizes da atualidade (se não a maior!), Huppert carrega o filme nas costas como poucas vezes foi visto no cinema dos últimos anos.  Aqui, seu charme implacável e sua confiança afloram nessa atriz que lembra muito as musas do cinema nos anos 40. E o mais interessante para quem acompanha a atriz, é vincular todo o sofrimento que ela passa e não se abala com outras situações vividas por ela em sua filmografia. Logo após a primeira cena, que é o primeiro ataque sofrido por Michèle, o espectador que assistiu A Professora de Piano (2001), por exemplo, com toda certeza vai pensar: “Tenho certeza que isso não a abalará!”, e não abala. Suas ações após o ataque e a frieza com que age diante de tal situação serve como uma perfeita apresentação da personagem.

A partir desse fato, há várias possibilidades de abordagem e de gênero que Elle poderia seguir: de drama psicológico ao thriller investigativo, mas o diretor posiciona seu longa em um limite tênue entre o suspense genuíno e um drama com toques de comédia negra. As cenas de agressão são cruas e sem pudor, como o diretor sempre fez em sua filmografia. Michèle é cercada por vários personagens que interagem diretamente com ela e necessitam de sua atenção, sempre orbitando ao seu redor com suas subtramas e dilemas, o que não abala em nenhum momento o psicológico da protagonista. Como  uma rocha, a cena onde ela revela à uns amigos que foi atacada e violentada, apenas uma atriz como Isabelle Huppert para conseguir transmitir tantos nuances com o mínimo de alteração na voz e no movimento corporal.

elle-isabelle-huppert

Talvez o único problema do longa (ou não, depende do ponto de vista) seja uma falta de um desfecho bombástico, apesar de algumas reviravoltas que acontecem ao longo do filme. Mas, se tratando de Verhoeven, que sempre desafiou as convenções hollywoodianas desde os anos 80, mantém os pés no chão e conduz a película com segurança e elegância. E mesmo que alguma subtramas apresentadas oscilem na qualidade de desenvolvimento e em suas conclusões, elas encaixam-se perfeitamente na proposta do filme: que é colocar Michèle em meio à personagens problemáticos, mas que  mal sabem que ela é quem está passando talvez o maior dos problemas entre eles e não demonstra sequer um sinal de fraqueza.

Com um clima um tanto opaco, Verhoeven cria um filme que investiga o comportamento pós-traumático de uma mulher que já possuía problemas suficiente para devastar muitas pessoas por aí. A grande força de Elle está justamente na atuação de sua protagonista, que merecidamente deve ser indicada ao Oscar em 2107.  E merecidamente.

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