As Diabólicas (1955)- Crítica

Avaliação: 4.5 Stars (4.5 / 5)

‘Spoiler’ é designado como a revelação de qualquer informação de algum livro, filme, ou série que possa estragar a experiência de outras pessoas. Nos dias atuais, com as redes sociais em profusão fica praticamente impossível guardar uma revelação de um filme ou seriado de tv. Mas, nos anos 50, onde as informações de roteiro e reviravoltas nos filmes era mais facilmente preservado, alguns filmes conseguiram surpreender todo o público sem que houvessem tantas brigas por conta de reviravoltas reveladas como acontece hoje na internet. Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, e principalmente As Diabólicas (1955), de  Henri-Georges Clouzot eternizaram-se pelo grande fator surpresa.

O longa conta a história de Christina Delassalle, que é casada com Michel Delassalle, que é diretor de uma escola. Ele maltrata a esposa constantemente, e possui uma antipatia com praticamente todos ao seu redor. Nicole é amante do diretor, mas também não está satisfeita com a forma que é tratada. Ela e Christina então decidem pensar em um plano para dar um fim em Michel.

A primeira coisa que chama a atenção é a formação do triângulo amoroso: ao contrário do que estamos acostumados, com o casal de amantes tramando um plano para assassinar o traído; aqui temos a esposa e a amante planejando o assassinato do marido infiel. Aliás, Michel desde o princípio do filme nos é apresentado com o intuito de nos afastar do personagem. Com uma interpretação sem exageros que podiam acontecer por conta do temperamento do personagem, o ator Paul Meurisse entrega uma interpretação precisa de um homem arrogante e extremamente mal humorado.

Apesar do nome do filme  indicar uma vilania por parte das duas mulheres, em momento algum o filme faz com que julguemos-as, além de deixar em aberto como era a relação de Michel e Christina. Pois, em outro acerto do roteiro, o filme já inicia com Christina decidida a dar um fim em seu marido. E apesar de vermos como ele é frio e malvado com ela, não temos conhecimento de como era a relação deles no passado, o que talvez fizesse com que o público condenasse ou não Christina, deixando nas mãos do espectador para conceber e completar a história interpretando particularmente a atitude de Christina.

diabolique-the-criterion-collection-20110516002428160-3449926

A direção do Clouzot é segura e controlada. Imprimindo um ritmo dinâmico e uma certa elegância na formação dos planos, o diretor acertadamente insere certos elementos cômicos (representado no casal de vizinhos acima do apartamento) em meio a uma das sequências mais pesadas do longa, que é quando Christina e Nicole assassinam Michel na banheira. Essa passagem é lenta e sem pressa, fazendo bem o uso do total silêncio, angustiando ainda mais o espectador. Além de que uma cena onde duas mulheres (esposa e amante) friamente afogam um homem na banheira era pesadíssimo nos anos 50.

Após a conclusão do plano das duas, o filme passa então a abordar o desencadeamento do crime cometido por elas. Ganhando um clima crescente de horror psicológico, Clouzot ainda consegue inverter nossas expectativas em um final cruel e inesperado. Estratégia que com toda certeza influenciou centenas de filmes de suspense posteriores.

Tratando de forma eficiente da culpa e da cumplicidade, As Diabólicas é um filme pesado, mas que consegue ter uma sensibilidade no que se refere à expectativa do público. Permanecendo atual estética e tematicamente, foi muito além de um exercício de gênero e galgou status de clássico cult. Mais do que merecido.

Curta nossa página no facebook!

Comentários no Facebook