Westworld: HBO começa com o pé na porta!

Avaliação: 5 Stars (5 / 5)

Constantemente, os clássicos da literatura e do próprio cinema tem seus universos invadidos pelos remakes/reboots. Obras que consideramos irretocáveis acabam nas mãos de produtores que visam apenas o lucro e muitas vezes não respeitam o legado criado pelo tempo. Em contrapartida, Alfred Hitchcock sempre preferiu adaptar obras literárias que ele próprio não considerava providas de muita qualidade. Nesse caminho, a HBO pegou um filme que apesar de ótimas ideias, tem muitos problemas e era de certa forma esquecido pelo grande público. E com a liberdade criativa já característica do canal, o acerto foi enorme.

Assim como no filme (clique aqui para nosso texto sobre ele), a concepção básica permanece intacta: Uma corporação extremamente poderosa e cheia de recursos tecnológicos (no filme ela chama-se Dellos, mas na série ainda não foi mencionado seu nome) recria ambientes de época e cobra caríssimo para pessoas passarem “férias” nesse universo artificial, que no piloto e talvez na primeira temporada inteira seja o velho oeste. Nele, não há lei nem regras, e as pessoas (chamadas recém-chegados) não podem ser machucadas pelos androides que compõem esse universo (anfitriões). No filme, há um dispositivo nas armas dos anfitriões que não permite disparar contra corpos com temperatura alta, mas na série as armas disparam, mas elas simplesmente não machucam os recém-chegados.

Inicialmente, a história gira em torno da personagem Dollores (Evan Rachel Wood), que assim como todos os outros androides seguem o roteiro prescrito pelos idealizadores da corporação. Ela está sendo interrogada sobre o conhecimento da natureza da sua existência, para logo após vermos como ela segue a sua “rotina” dentro da narrativa. Então, vemos Teddy (James Marsden), chegando de trem à vila. Nessa primeira parte, a série brinca com nossa perspectiva nos fazendo acreditar que Teddy é um recém-chegado, que logo é invertida com a entrada do misterioso personagem do Ed Harris (que ainda não tem nome), um recém-chegado que claramente quer bagunçar as linhas narrativas daquele universo tentando descobrir como funciona tudo aquilo. Em uma interpretação talvez inspirada no homem sem nome, do Clint Eastwood, Harris consegue transportar um sentimento de perigo e mistério ao seu personagem, que deve ser um dos mais interessantes no primeiro ano. Aliás, vários personagens carregam uma carga de mistério: todos os funcionários envolvidos na criação e atualização dos androides transmitem muita incerteza nas suas ações, assim como deve haver algum twist nas reais motivações da corporação, que não deve ser apenas financeiro. Outro destaque de atores vai para Anthony Hopkins, que é retratado como o criador de toda a concepção desse universo.

Durante todo o episódio piloto, que é dirigido pelo Jonathan Nolan, muitas referências são notadas, mas todas bem vindas e claramente como inspirações: Cronenberg, já que  há muito de criacionismo em seu texto;  até Stanley Kubrick no design de produção da corporação; como também o recente filme Ex-Machina. Como toda série da HBO, a produção é suntuosa e os cenários extremamente detalhados e enormes. Assim como no filme, o elemento da metalinguagem se faz fortemente presente, assim como a técnica da narrativa em abismos (expliquei sobre ela na crítica do filme Rashomon, leia clicando aqui), já que as narrativas são reiniciadas várias vezes, fazendo com que os personagens entrem em um ciclo de ações muitas vezes repetidas.

Tematicamente Westworld também se destaca. O ótimo texto passeia por reflexões sobre os perigos que a alta tecnologia pode representar ao ser humano, e que em algum momento coisas podem dar muito errado, como na cena em que um androide encontra uma foto de um ambiente que ele nem poderia ter conhecimento da sua existência e isso causa sérios problemas no seu funcionamento; sobre a vida ter ou não um caminho preestabelecido e que encontros podem ou não serem obras do acaso, o que acontece quando a narrativa reinicia e algo que deveria acontecer acaba sofrendo leves alterações; assim como o homem não pode brincar de Deus e criar um ser humano com complexidade neurológica e espiritual, que é claramente inspiração de Frankenstein de Mary Shell.

Com elenco, temática e linguagem em alto nível, a HBO mostra que não está para brincadeira e pretende fazer de Westworld um poço de reflexão e primor técnico. Mesmo não oferecendo um alto grau de diversão -que claramente não é a proposta da série- há muito o que se apreciar e discutir na história criada por Jonathan Nolan e Lisa Joy. A minha única ressalva fica capacidade dos roteiristas de expandirem esse universo, já que foi falado que a série foi projetada para 5 temporadas. Mas se a qualidade se mantiver, ela promete cravar seu nome no grande escalão das maiores produções para tv de todos os tempos. Veremos…

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