Rashomon (1950)- Crítica

Em toda a história do cinema, milhares de diretores conseguiram algum reconhecimento com seus filmes; centenas deles foram além e são e serão lembrados pelos críticos e público; mas apenas uma ou duas dezenas deles podem gabar-se de terem revolucionado a sétima arte. E com toda certeza, Akira  Kurosawa é um desses diretores.

Rashomon (1950) tornou-se seu primeiro grande sucesso, e precedeu outros grandes filmes do diretor como Os Sete Samurais (1954), Trono Manchado De Sangue (1957), Yojimbo – O Guarda-Costas (1961) e Ran (1985). Ele conta a história de um lenhador, um sacerdote e um camponês procuram refúgio nas ruínas de pedra do Portão de Rashomon. O sacerdote diz os detalhes de um julgamento que testemunhou, envolvendo o estupro de Masako e o assassinato do marido dela, Takehiro, um samurai. Em flashback é mostrado o julgamento do bandido Tajomaru, onde acontecem quatro testemunhos, inclusive de Takehiro através de um médium. Cada um é uma “verdade”, que entra em conflito com os outros.

A história, que pode parecer simples em sua concepção, chama atenção pela estrutura narrativa adotada por Kurosawa. Um recurso utilizado no longa é a ‘cena em abismos‘, que é caracterizada pela existência de narrativas dentro de outras narrativas. Esse recurso foi utilizado pela primeira vez pelo francês André Guide, em 1981. No filme esse recurso é evidente pois vemos um filme onde três personagens encontram-se, e narram uma história, que passa-se no tribunal de alguém que ao ponto que vai contando outra história o espectador vai percebendo as várias camadas que a narrativa vai adquirindo. A cena em abismos é muito usada na literatura e na pintura. No cinema, os filmes  As Horas e A Origem são os exemplos mais eficientes nesse tipo de narrativa.

Outro ponto em que o roteiro do longa ousa está na história contada através de vários pontos de vista, já que cada um dos personagens do julgamento do bandido contam uma versão diferente do que aconteceu. Essa técnica ficou tão famosa que a expressão foi batizada como ‘efeito Rashomon’. E diversos filmes usaram desse tipo de narrativa, como Pavor Nos Bastidores (1951), O Grande Golpe (1956), Pulp Fiction (1994), e Os Suspeitos (1995). Mas a grande diferença do filme do Kurosawa para os outros citados, é que ele não está interessado em desvendar o mistério de qual das versões da história é a verdadeira, e sim usa-la para desenvolver os temas presentes no filme.

Aliás, não é apenas tecnicamente que Rashomon se destaca, tematicamente o filme também é muito forte, pois aposta na universalidade e atemporalidade dos dilemas tratados, que o torna ainda atual. A forma como a mulher é tratada perante o estupro permeia todas as versões da história, e mesmo dez séculos depois da época que ambienta o longa, vemos que não mudou muita coisa. A maldade  do ser humano também é pontualmente mencionada pelos três personagens que narram o julgamento, com muitas frases fortes e marcantes. E a bondade e esperança também está presente, com o caso do bebê abandonado.

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Na direção, Akira Kurosawa também mostra-se um diretor inventivo e cheio de recursos. Imprimindo um bom ritmo na montagem e  afastando-se do estilo japonês de filmar, com planos mais estáticos e longos, o diretor abusa dos movimentos de câmera e dos planos e contraplanos. A fotografia é maravilhosa, com alguns enquadramentos fantásticos, e vale citar que o filme foi todo filmado com luzes naturais, o que demandou um empenho e paciência imenso da produção, pois a iluminação poderia mudar a qualquer momento e se tornaria imprópria para o que o diretor queria em determinada cena. Outro exemplo de preciosismo é em uma cena onde o véu da Masako Kanazawa balança em uma cena, que levou quase quatro horas para o diretor chegar ao efeito desejado.

Mesmo que o diretor tenha explodido para o mundo posteriormente com Os Sete Samurais, Rashomon foi onde ele consolidou-se de vez no mundo do cinema. É um dos raros exemplos em que o esmero técnico não abafa o valor temático da obra.

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