Narcos: 2º Temporada- Crítica

 

Avaliação: 4 Stars (4 / 5)

Narcos é, desde sua concepção, uma série muito ambiciosa. Contar uma história tão abrangente, não apenas em sua passagem de tempo, como também em todas as instituição envolvidas direta e indiretamente não é simples, mesmo para os padrões de uma série de televisão, que dispõe de maior tempo de tela para fazê-lo. Ainda mais quando a real história pode trair o fator surpresa e entregar algumas passagens, como o final dessa segunda temporada da série. Então, a netflix terá que tirar alguma carta da manga para manter o nível de qualidade da série e interesse do público.

Uma das grandes diferenças para seu ano anterior é o tempo  que a série abrange. Se na primeira temporada passam-se vários anos, aqui a série acerta em focar em um curto espaço de tempo. Isso possibilita um peso maior para tudo que acontece, há mais tempo para desenvolver as relações dos seus personagens. Escobar, por exemplo, tem suas duas faces bem apresentadas e diferenciadas. Enquanto comete atrocidades para conseguir seu objetivo, ele mostra-se um pai afetivo e um marido carinhoso. No final do segundo episódio, suas duas facetas são colocadas lado a lado em uma sequência fantástica onde a montagem expõe paralelamente Pablo dançando suavemente com sua mulher, enquanto as mortes dos policiais encomendadas por ele são mostradas ao mesmo tempo.

Porém, falta ao espectador uma maior compreensão na dimensão de tudo que Escobar conquistou ao longo da série. Visto isso, se a netflix não tivesse se apressado e tivesse dado mais uma temporada antes de chegar à esse ponto da história, o público poderia acompanhar mais de perto todo o crescimento do “império”conquistado pelo protagonistas, além de faltarem também algumas iconografias que ajudariam a dar maior dimensão aos feitos de Pablo. Lembram-se da cena em Breaking Bad quando Walt olha a pilha de dinheiro que ele conseguiu e não tem onde guardar/esconder?

Nos aspectos técnicos, a série continua vislumbrante. Já que ela trabalha com vários núcleos e em lugares muito diferentes, o ótimo design de produção é muito eficiente na retratação de todos os ambientes. A direção(sem brasileiros, com na temporada anterior) também é outro ponto alto, já que ela adapta-se ao tom que a série toma ao long dos episódios. No momento em que Carrillo retorna para a trama, com suas ações radicais, a série ganha contornos de horror com cenas fortíssimas. Em outros momentos, em algumas tomadas externas pelas ruas de Medellín, ela aproxima-se um pouco do clima do filme Sicário: Terra De Ninguém, de Denis Villeneuve. No fim do episódio 9, há uma cena de tiroteio em plano-sequência que lembra muito a famosa cena na primeira temporada de True Detective, igualmente funcional, mesmo que não tão grandiosa quanto. Próximo ao seu final, quando Escobar vai se refugiar em uma fazenda, há alguns planos contemplativos que remetem aos filmes de Terrence Malick, como A Àrvore Da Vida e Amor Pleno.

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Outro ponto em que a série diferencia-se do primeiro ano é no roteiro. Se em seu início, Narcos concentrou-se no processo de produção e distribuição da droga, juntamente com a ascensão de Escobar. Agora, a série busca retratar as consequências dos atos de seu protagonista e o quanto ele tem que lutar para manter tanto poder. Ao longo dos episódios, há uma crescente desconstrução do Escobar implacável que conhecemos. Ele vai gradativamente perdendo tudo que conquistou, como dinheiro, influência, aliados, e até sua família, que é claramente seu bem mais precioso (e ponto fraco).

Talvez o grande erro de Narcos esteja na sua insistência em aumentar a escala da trama. Pois o foco se dissolve quando uma grande quantidade de núcleos são abordados. E muitos personagens são introduzidos a todo instante, e às vezes a série tem que parar para entrar a narração paralela explicando sobre ele, e situando o espectadores no contexto, o que gera uma quebra de ritmo prejudicial à série. Quando ela foca-se basicamente na caça da policia colombiana por Escobar, é onde Narcos encontra seu fio narrativo e torna-se mais interessante.

Em seu fim, Pablo Escobar é vencido pelo seu erro induzido por sua grande afeição à sua família. E justamente em uma cena onde ele está em uma praça tomando sorvete e observando as pessoas em sua volta, percebe que as coisas mais simples da vida são as mais sublimes. No fim, Narcos deixa claro que Escobar, apesar de tudo, sempre foi melhor pai e marido do que traficante.

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