The Night Of- Muita qualidade técnica e pouca narrativa

As séries de tv estão ficando cada vez mais caras de se produzir, e por isso, requerem uma grande audiência para obterem lucro. Ultimamente, o recurso de fazer o espectador tentar desvendar o que é irá acontecer nos próximos episódios foi intensamente usado pelas emissoras. Se exaustivamente utilizado, ele pode “jogar contra o time” e prejudicar a experiência e até mesmo irritar o espectador. E The Night Of fez isso.

O começo é promissor: Nasir(Riz Ahmed) é um rapaz de classe média que, em um ato movido puramente por seu instinto jovial, pega o taxi de seu pai sem ele saber para ir à uma festa. Nesse meio tempo, Andrea( Sofia Black D’Elia),uma jovem, entra no carro e os dois acabam indo para a casa dela, e lá usam drogas e fazem sexo. Nasir acorda percebendo que havia apagado, e quando vai ao quarto, vê que ela foi brutalmente morta com golpes de faca. Com a dúvida de ter sido ele o autor do crime, ele tenta fugir, mas sem sucesso e acaba preso.

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O primeiro episódio usa um pouco de situações das comédias de erros, mas com um ar mais sério e até sombrio. Por alguns instantes durante o primeiro episódio pensei que a série quisesse ser uma espécie de True Detective, pois em ambas acontece um crime misterioso, mas se na série do Cary Fukunaga tramas mais complexas e maiores se desenrolam a partir do mistério inicial, The Night Of não parece interessada no crime em si.

Uma das coisas que a série está interessada é  todo o processo que envolve um assassinato dessa magnitude. Todos os procedimentos são mostrados de forma clara e didática: Nasir vai para o purgatório de Rikers Island, onde ele fica mantido esperando seu julgamento: seus pais passam dificuldade para poderem pagar um advogado que consiga livrar seu filho da prisão perpétua; assim como todo o processo que envolve o julgamento de Nasir.

Tecnicamente, assim como quase todas as séries da HBO, ela é impecável. Possui uma direção com os planos precisos e muito elegantes, mesmo que alguns planos-detalhe sejam sem fins narrativos(como alguns planos em xícaras de café ou em barras de ferro). O design de produção belíssimo e a paleta de cores sempre frias ajudam a contar sobre os personagens. A série possui um clima niilista e solitário, muito desse mérito é do trabalho de atuação, que está muito bom. Destaco aqui os atores que fazem os pais do Nasir, que mesmo com pouco tempo de tela, eles conseguem transmitir a dor e o sofrimento que é ter um filho em uma situação tão horrível.

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Outro aspecto que a série trabalha, e parece que pouca gente percebeu, é a xenofobia. Nasir é descendente de paquistaneses, e isso gera muitos comentários negativos em relação a ele durante todos os episódios. No piloto, por exemplo, quando ele e Andrea estão chegando à casa dela, dois caras passam por eles e fazem piadas sobre terrorismo; ou como durante o julgamento, quando alguém de sua antiga escola conta uma história sobre ele sofrer bullying e mandar dois colegas para o hospital. Mesmo isso não sendo o fio condutor da narrativa, ele sempre aparece nos diálogos, mesmo que sutilmente.

Mas o grande problema de The Night Of está no seu mistério principal: quem matou Andrea. Ao longo de 7 dos 8 capítulos, praticamente não é revelada nenhuma pista que possa fazer esse mistério avançar narrativamente. Apesar de não ser o principal interesse da série, a partir do momento em que um crime misterioso é cometido, e tudo que vem depois é decorrente desse crime, há uma expectativa a ser cumprida. E há ainda um momento em que o Advogado do Nasir persegue um potencial suspeito e o episódio acaba, no próximo a série ignora completamente esse ocorrido. Então há um abuso do suspense para que o espectador possa ficar preso a assistir simplesmente para saber o que vai acontecer em seguida.

As expectativas para a season finale eram altas. Algumas teorias que apontavam o gato como chave do mistério rolavam na internet, e a série teria que responder os mistérios que estabeleceu em seu início. Em vez disso, o roteiro usa a solução mais óbvia e preguiçosa: trazer elementos e personagens que não eram mencionados até então na trama. Um roteiro melhor  distribuiria pistas, mesmo que sutis e discretas sobre como seria o final, assim ao menos o espectador não se sentiria enganado. E pior, mesmo que tenha deixado todos os indícios de quem foi o assassino da jovem, nada foi confirmado realmente. E fazendo isso, a série parece se considerar inteligente demais para deixar de desenvolver os dramas dos personagens e focar na trama principal. O que é uma pena, pois True Detective, da própria HBO , mostrou que dá para ser narrativamente atraente e  paralelamente desenvolver seus temas e personagens. Por fim, o mais legal que fica na nossa mente no desfecho de The Night Of foi saber que John ficou com o gato.

3.5 Stars (3.5 / 5)

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