A Sombra de Uma Dúvida- Crítica

‘Mestre do suspense’. Essa é a expressão pelo qual é conhecido Alfred Hitchcock, um dos cineastas mais importantes da história do cinema e dono de pérolas da sétima arte como Janela Indiscreta, O Homem Que Sabia Demais, Um Corpo Que Cai, entre outros. os menos iniciados tendem a rotulá-lo como um realizador apenas dentro do gênero suspense. Leigo engano, pois o diretor constantemente flerta com outros gêneros, como com o terror (Psicose), filme desastre (Pássaros), comédia (O Terceiro Tiro) e até romance (Vida Fácil). Em A Sombra De Uma Dúvida (1943), Hitchcock pisa fortemente no drama psicológico, nesse que o próprio considera como o melhor filme de sua extensa carreira. Esse fato por si só já é suficiente para atrair atenção, ainda mais que ele foi concebido antes dos maiores clássico da carreira do diretor, como os citados nesse texto.

Como em outros de seus filmes, o início traz um conjunto de planos que partem de uma cidade, passar por uma rua, e vão até o quarto de um homem. Esse tipo de sequência de quadros é conhecido como ‘do geral para o particular’. Como se naquele universo, qualquer outro movimento que a câmera tomasse, pudêssemos acompanhar alguma outra intrigante história. A trama gira em torno de Charlie Oackley, que está deitado em sua cama, e logo toma conhecimento que há dois detetives o procurando, e ele, para fugir de um crime ainda misterioso, vai morar com sua irmã, cunhado e sobrinhos.

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Um dos pontos fortes de A Sombra De uma Dúvida é fazer com que  o espectador crie em seu imaginário o retrato de seu personagem principal, já que não o vemos cometer nenhum de seus crimes anteriores ao filme. Hitchcock então deixa que quem está assistindo possa construir dentro dele a imagem macabra que desejar, e com sua habilidade impressionante de manipular o público, o diretor sabe o momento certo de revelar os atos horríveis cometidos por Charlie Oackley, em uma das melhores cenas do filme. O Longa então ganha novo gás quando a sobrinha de Charlie descobre seus crimes e tem que lidar com o dilema e contar ou não á família tudo que sabe.

Aqui entra o toque de gênio do diretor.

A escolha do ambiente familiar onde passa-se a trama não é por acaso. A Sombra de Uma Dúvida mostra que o mal pode estar em qualquer lugar, inclusive dentro de sua família, dentro de sua casa. Outro elemento intrigante é a semelhança de pensamentos de Charlie e sua sobrinha em relação à forma como as pessoas levam suas vidas, além dos dois serem chamados por praticamente o mesmo nome: Charlie e Uncle Charlie. A primeira, uma jovem, no início do longa reflete como os dias passam e as pessoas caem em uma rotina tediosa de dormir, trabalhar, voltar pra casa e dormir novamente. Já seu tio, em uma cena muito tensa durante o jantar, fala como as viúvas são vazias ao gastarem o dinheiro de seus falecidos maridos de com coisas fúteis, e como elas parecem estar felizes com aquela situação. Claro, nenhum dos temas centrais da trama é profundamente desenvolvido, mas esse talvez seja um equilíbrio que o Hitchcock encontrou para produzir seus filmes. Mesclando um lado mais comercial e acessível, com um domínio completo da linguagem cinematográfica e temas profundos ( mas disfarçados de superficiais). Talvez esse tenha sido seu grande diferencial para  conquistar o público e a crítica ( mesmo essa mais tardiamente).

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O diretor sempre sacrificava a profundidade de suas tramas em troca dos recursos narrativos utilizados e no efeito que ele causava em seu espectador. E em A Sombra De Uma Dúvida ele pagou caro. Mesmo com um bom texto e diálogos, o roteiro falha em não desenvolver o núcleo investigativo que o próprio filme indica em seu primeiro ato. E assim sobrando mais tempo para o núcleo familiar, o filme acaba perdendo o ritmo na sua metade, desencadeando algumas sequências de diálogos sem importância para a história.

Mesmo que para Hitchcock A Sombra De Uma Dúvida seja seu longa preferido, é nítido que o realizador cresceria muito mais nos anos posteriores a ele. Porém, não deixa de ser interessante pela forma como o diretor conduz a trama e pela sua capacidade em causar os mais tenebrosos sentimentos sem a menor violência gráfica em tela.

4 Stars (4 / 5)

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